quarta-feira, janeiro 25, 2012

Esquecer do Passado

(O Segundo texto do Roberto Fernandes a pedido dele pra ser postado antes do jogo).

"Aqueles que esquecem do passado estão condenados à repetí-lo."
Por Roberto Fernandes

Existem jogos que não devem ser esquecidos. Bons e Ruins. E pra mim dois ficam claros na memória: A final do mundial de 2006 e a fatídica semi-final de 2010.

O confronto épico em Yokohama já assisti incontáveis vezes. Tenho um vídeo original da TV La Siesta, uma transmissão catalã em alta qualidade que é perfeita. E engraçada pelas reações do narrador, torcedor escrachado do time espanhol. Tenho o jogo completo também pela globo e pelo sport tv. Tenho a narração completa pela gaúcha e pela Band. A narração do gol por todas as rádios do RS. Os comentários. Os melhores lances. Tudo. Guardado como tesouro.

O confronto de Abu Dhabi pra mim foi marcante não só pela fatalidade, mas por todo o contexto. Casei em 4 de dezembro, e estava em lua de mel acompanhando o colorado. Presenciei um Beira Rio com nome de Mohamed Bin Zayed Stadium.

E já assisti 3 vezes ao jogo contra o Mazembe.

A primeira, ao vivo, de onde fui de uma euforia e inquietação, do alto da maravilha de estar em um evento dessa magnitude, ao lado da mulher que amo, até o fundo do poço e a incredulidade de enxugar as lágrimas dela enquanto nos dirigíamos ao ônibus que nos levaria de volta à Dubai, de cabeça baixa e tentando descobrir de onde veio a pedrada que nos derrubou. Levou horas para cair a ficha do ocorrido. E foi o momento de agradecer por estar do outro lado do mundo, cercado apenas por colorados. Ouvindo apenas colorados. Conversando apenas com colorados.

Depois disso levei 6 meses para rever os lances e o jogo completo. Baixe-o em alta definição e engoli o choro para assistir cada um dos 90 minutos de partida. Cada lance perdido que poderia ter feito a diferença foi repetido mais de uma vez (“Se essa bola entra...”). Cada gol que tomamos, que mudou a história completamente, foi visto. Exceto os replays. Isso eu não consegui. Pulei também as comemorações adversárias.

Antes de fechar 2011, assisti novamente aos principais trechos do jogo. Da mesma forma, repetindo os lances que poderiam ter mudado o contexto da partida. Pulando os replays. Respirando fundo no chute do Sóbis, do Giuliano. Em cada gol que não fizemos. Pensando como poderia ter sido diferente. E em como isso foi triste.

George Santayana, em 1905, foi quem disse a frase título desse post. Na Alemanha, desde que o código penal foi modificado, em 1993, dizer que o Holocausto não existiu é passível de multa e até prisão. Negar que milhões de Judeus foram assassinados no capítulo mais negro da história do planeta é crime.

Antes do jogo contra o Once Caldas, a partida contra o Mazembe deveria ser transmitida na sala de apresentação do internacional. Com todos os jogadores (que estavam no mundial ou não) assistindo. Com luzes acesas, para que a vergonha dos que participaram seja exposta. Não para encontrar culpados, mas para que a ferida, um pouco cicatrizada, doa. Para que nunca se esqueçam do que acontece com quem subestima o adversário. Para que nunca se esqueçam que para chegar ao topo da escada, é preciso subir os primeiros degraus da mesma forma.