terça-feira, dezembro 08, 2009

A Beleza da Moldura

Um silêncio incomum reinava no pátio do Beira-Rio antes do jogo, domingo passado. Era a última rodada do campeonato e havia uma razoável chance matemática de título, mas só mesmo matemática. Nas conversas entre amigos, quase não se falava de futebol. Não havia euforia, não havia entusiasmo, não havia expectativa e, aparentemente, nem mesmo esperança. Mas ao entrar no estádio, uma revelação: a esperança nunca morre, apenas dorme de vez em quando.

Começa o jogo e um Santo André de camisas amarelas e calções e meias azuis me faziam crer que 2010 já havia começado. Pensei que já era Gauchão e que jogávamos contra o Pelotas. A facilidade do jogo, da memsa forma, reforçavam essa impressão. Mas apesar de tudo, eu estava nervoso.

Na fileira de cadeiras atrás de mim, na arquibancada superior, três senhoras e uma jovem colorada, torcendo com admirável intensidade, acreditando no título. Um otimismo puro, ingênuo, inocente como o de uma criança me contagiaram, embora não tenham curado o meu ceticismo. Mas embora cético, eu continuava nervoso.

Irrequieto, eu pulava de um lugar pro outro no estádio. Ora com um grupo de amigos, ora com outro. Ora ia ao banheiro, sem vontade, ora comprava um cachorro-quente, sem fome. Não vi o jogo, não vi a pintura. Domingo à tarde, me concentrei na moldura, nos seus detalhes. Era como seu eu fosse a Paris visitar o Louvre, não para admirar o sorriso da Monalisa, mas a arte de quem a enquadrou. Insano, totalmente insano!

Nesse vai e vem, eu estava comprando um refrigerante quando ouvi um rugido de emoção constrangido vindo das arquibancadas, enquanto uma vendedora de pastel com ouvido grudado no radinho informava aos prestadores de serviço daquele setor do estádio: “gol do Grêmio”. Então, alguns segundos depois, um urro coletivo de alegria e contentamento tomaram conta do Beira-Rio sem qualquer vergonha, sem nenhum embaraço: Inter 1 x 0. Não vi nada, mas senti tudo. Ouvia os gritos da torcida, assistia aos funcionários vibrando, e, por mais cético que eu continuasse, aquilo tudo me comoveu de uma maneira inédita!

Voltei à arquibancada onde nunca vi tantos fones de ouvidos: quase 30 mil plantonistas esportivos ouvindo atentamente a cada lance no Rio de Janeiro. Aos poucos, começava uma contagem regressiva, e diziam: faltam 55 minutos, faltam 50, faltam 45... Colorados ingênuos, crédulos, puros, contando os minutos para o esperado, porém impossível título de Campeão Brasileiro do Inter em 2009. Eu, em silêncio fúnebre, pensava: falta mais um ano, após longos trinta.

No intervalo de jogo, confidenciei aos amigos que me sentia como um condenado no corredor da morte. A sentença era conhecida, bem como a certeza de sua execução. A única coisa que eu não sabia era em qual dos 45 minutos seguintes ela seria cumprida. E foi, quando da notícia do segundo gol do Flamengo.

Contudo, o que vai ficar eternamente na minha lembrança, foi o dia em que embora todos soubessem que a taça não viria, muito embora não houvesse expectativa na torcida antes da bola rolar, um fio de esperança fez a torcida vibrar no Beira-Rio pela perspectiva de título durante 110 minutos nos quais a emoção sobrepujou a razão de maneira implacável.

A pureza de sentimento naqueles rostos ansiosos e incrédulos, que os fez vibrar, comemorar gol dos rivais e contar os minutos, esmagou a razão e a lógica por mais de uma hora e meia. Não é possível negar que muitos colorados sentiram o gostinho do título por alguns instantes, mesmo os mais céticos como eu. E isso é bonito. Sim, foi lindo de ver! Momentos assim valem a pena viver, não há o que pague. Ainda que efêmeros, são os melhores momentos da vida!

Num dia de quase nenhuma esperança, foi a emoção alheia que me tocou e me proporcionou um sentimento que até então eu jamais havia vivenciado. Então, saí do Beira-Rio com uma certeza renovada: a de que nada é capaz de abalar a fé dos colorados. E é essa força coletiva, essa vibração que leva o clube a ser capaz de desafiar o impossível e de vencê-lo. Mas há uma condição irrefutável para isso: a de que o Inter dependa só da sua força, de mais nada!