terça-feira, janeiro 27, 2009

53 Bem de Perto

53
Domingo pude ver o Inter de perto, bem de perto, no Passo D’Areia. O estádio do Zequinha é um atentado à segurança. Uma única entrada/saída para a torcida do Inter. Um funil. Sorte que a briga de poucos torcedores se resolveu praticamente sozinha, embora alguns brigadianos tenham, quando a coisa já estava se acalmando, provocado uma correria desnecessária. Mesmo assim, agraciado pela sorte em meio a tantos fatores de risco, pude ver o jogo em paz. E bem de perto.

Eis que o que era pra ser uma experiência agradável de ver meu time bem próximo ao gramado tornou-se algo, de fato, desagradável. Acho que aquela frase “De perto, ninguém é normal”, de autoria duvidosa, aplica-se bem ao jogo de ontem, pois, de pertinho, os defeitos do nosso time ficaram muito mais evidentes aos meus olhos. Embora, verdade seja dita, anteontem, até de Marte seria possível ver os absurdos contidos na escalação e formação tática(?) do Inter.

Ainda no aquecimento dos jogadores em campo, percebi que jogaríamos com Maycon e Rosinei, ficando claro que Tite repetiria quatro zagueiros e três volantes, como já o fizera no primeiro tempo contra o Santa Cruz. Ficou evidente a idéia de não sofrer riscos atrás e deixar que Nilmar, D’Alessandro e Alex resolvessem tudo na frente. Mas não foi o que vi.

No pequeno, porém bom gramado do Passo D’Areia, vi o time do Zequinha muito bem disposto em campo e consciente. E, não apenas defendendo, mas atacando, com Sandro Sotilli e “Uh!” Fabiano. E como atacar um time com quatro zagueiros e três volantes num gamado de dimensões reduzidas? Chutando de fora da área (e foram dois chutes perigosíssimos que passaram rente ao gol de Lauro), e pelos lados do campo. Indubitavelmente, as situações mais perigosas de gol, e o próprio gol do São José, surgiram de jogadas de linha de fundo, de bolas vindas dos lados do campo para a área do Inter.

Mas daí eu questiono? Como pode um time com quatro zagueiros e três volantes, num gramado diminuto, conceder espaço para perigosos chutes de fora da área e jogadas de linha de fundo? E respondo: não adianta escalar 5 zagueiros e 5 volantes, se o time não tiver qualidade. O adversário achará os espaços. A propósito, tá na hora de parar com essa verdade absoluta de que temos um super grupo. Bastam dois ou três desfalques para desmentir essa tese. Para certas posições, não temos sequer um titular da função.

Ainda no primeiro tempo vi que invariavelmente quando o Zequinha perdia a posse de bola, recuava e deixava espaço para que o Inter avançasse pela direita, com Bolívar. Claro, era por ali o menor risco para o time da Zona Norte. Sorte nossa que Fabiano é ponta direita. Fosse canhoto, teríamos ressuscitado nosso ex-jogador.

Mas Bolívar não é lateral, Bolívar é zagueiro. Na falta de um lateral direito no grupo, ele até pode e deve ser escalado contra times mais fortes, quando sua função for apenas defender, destruir, chutar a bola pra frente. Mas contra times menores, ele receberá constrangedores espaços para avançar e pouco ou nada fará. Não sem deixar uma avenida às suas costas. E o Zequinha, do perspicaz treinador André Luis, soube explorar bem nossas deficiências.

Enquanto isso, no meio, eu estou até agora tentando me lembrar de alguma participação que não tenha sido meramente burocrática de Maycon e Rosinei. Estavam ali, em campo, uniforme bonito, limpinho, bem alinhado. Um deles tem um penteado todo estiloso. Também correm com estilo. Mas não muito rápido, nem chegam muito forte. Vai que desarruma o uniforme? Vai que estraga o penteado? É que tá bom ser reserva do Inter hoje em dia. Eles têm moral, porque todos dizem que temos grupo, mas quando eles jogam (e jogam mal), não têm culpa, pois são reservas, o time tá desfalcado.

Menos mal que lá pelos vinte do segundo tempo o Tite resolveu colocar o Taison. E o Taison, sozinho, resolveu. Não teve nada de tático coletivo nos gols do Taison. Foram dois golaços, daqueles de dar orgulho, daqueles de fazer questão de rever várias vezes, por diversos ângulos na TV. Mas evidenciaram também a total ausência de esquema tático definido, de padrão de jogo. Vai lá e resolve, já que até agora ninguém resolveu.

Em meio a tudo isso, Alex e D’Alessandro se perderam em razão dos famosos critérios de arbitragem. O Zequinha provocou, o Inter caiu na provocação, e a arbitragem... Cada juiz tem o seu critério. Eles têm liberdade para interpretar os lances. O que determina como cada um deles interpreta? Sua personalidade, sua formação, seu caráter, experiências de vida. O que posso afirmar é que quem é gaúcho e gosta de futebol, ou é gremista ou é colorado. E árbitro de futebol gosta de futebol. Não sei se eles são tão evoluídos a ponto de abstraírem totalmente seu passado ao entrarem em campo para apitar. Acho que não. Portanto, é um risco com o qual temos que nos habituar. Há cerca de 50% de chances de termos nossos lances interpretados por alguém que não gosta da cor das nossas camisas. Nossos jogadores têm que saber disso e se cuidar.

Mas como futebol é eficiência, apesar de todas essas deficiências que apontei no Inter, fomos mais competentes nas finalizações. Temos Taison, eles Fabiano. Temos o futuro, eles o passado. Enfim, vencemos.

Para a próxima partida, o time estará ainda mais descaracterizado. Não é culpa do treinador. Mas estou curioso para ver o que ele vai apresentar em campo. Há uma linha muito tênue entre a cautela e a covardia. Não é mais acentuada a linha que divide a coragem da estupidez. Sei que não é fácil achar o ponto de equilíbrio, mas os profissionais do Inter ganham muito bem pra isso. E eu, que pago em dia, me sinto no direito de cobrar.