sexta-feira, janeiro 23, 2009

10 A experiência de Rodrigo Araújo

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Deixo com vocês um dos textos que norteiam minha visão sobre estádios de futebol, ele é a base de muito do que tenho defendido no Blog Beira-Rio 2014.
E falta muito ainda para que entendam aqui no Brasil o que é um verdadeiro espetáculo de futebol.
Ah, o autor não é o Rodrigo Araújo colorado do Blog Vamo, Vamo Inter.
Boa leitura.
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A experiência de Rodrigo Araújo.
Estádios do Benfica, Porto e Sporting são exemplos de facilidade ao torcedor
Fonte: GLOBOESPORTE.COM
O Brasil tem estádios para fazer uma Copa do Mundo? Esta não é a questão mais importante para nós. O que não temos, e isso sim é preocupante, é a idéia exata do que deve ser um estádio de futebol. A Eurocopa de 2004 e a Copa do Mundo da Alemanha este ano mostraram que, para entender de estádio, é necessário entender o que é um espetáculo de futebol.
Os europeus sabem o que é um espetáculo. Eles o fazem com a nossa matéria-prima, o jogador. E com outro ingrediente que anda em falta no nosso mercadinho de futebol: respeito ao torcedor. Um estádio não se resume simplesmente a um conceito arquitetônico. Nasce do desejo de receber, da melhor maneira possível, os torcedores. Clientes. É um centro de lazer. Uma casa de espetáculos. Um negócio.
Na Copa da Alemanha conheci somente um estádio, o Allianz Arena, em Munique. Aquele pneu branco que sobressai na paisagem da cidade alemã. Os números do estádio impressionam. Ele custou 340 milhões de euros, consumiu 22 mil toneladas de aço e tem 37 mil metros quadrados de área construída. A operação é feita com tecnologia de última geração. Um cenário preparado para a grande estrela: quem paga a conta.
A sensação de conforto não se restringe ao simples fato de estar acomodado num assento confortável – e os do Allianz Arena são. Acesso fácil, circulação tranqüila fora e dentro do estádio, espaço bem aproveitado, boas opções de alimentação, ótima comunicação visual para orientação dos torcedores. Com tudo isso, dá prazer chegar antes. Dá prazer consumir antes, durante e depois do jogo. É um centro de lazer. Uma casa de espetáculos. Um negócio.
A capacidade é de 66 mil espectadores, e cada um deles pode comprovar que, numa casa de espetáculo, é fundamental ver o artista de perto, o que é muito difícil em alguns dos nossos "colossos". No Allianz vi dois jogos ao nível do campo, incluindo a abertura da Copa (Alemanha x Costa Rica), e outro na arquibancada superior. E vi muito bem os três jogos, o que não chega a ser um grande diferencial. É básico para quem vende e para quem compra um espetáculo.
Tradição demolida - Depois da Copa, em Portugal, conheci três dos estádios usados na Eurocopa 2004. Os estádios dos três maiores clubes portugueses: Benfica, Porto e Sporting.  Para aqueles que tremem quando ouvem alguém dizer que o Maracanã deve ser demolido e reconstruído (me incluo entre esses, confesso), são três monumentos de ingratidão. Mas o saldo é altamente positivo. Da tradição demolida surgiram três belos estádios.
Dos três, o que mais impressiona é o do Futebol Clube do Porto. O proprietário do antigo Estádio das Antas hoje atua no imponente Estádio do Dragão. Não parece um estádio. Parece um teatro de futebol. Beleza e funcionalidade fizeram uma tabelinha perfeita. A arquitetura moderna permite que, de fora do estádio, você consiga ver uma pequena parte do campo. O começo da visita oficial é pelo luxuoso setor vip, onde mais uma vez você tem a sensação de que não está num estádio de futebol – ou pelo menos o que imaginamos ser um estádio de futebol.
O placar é um símbolo do conceito de operação moderna e rentável de um estádio: quando não há jogo, ele gira e se torna um painel publicitário externo. A perfeição na iluminação e na utilização racional de energia tornou o Dragão o primeiro estádio europeu a receber, da Comissão Européia, o certificado "Green Light". Vamos encontrar um defeito? O estádio é todo aberto. O ar circula livremente. No inverno talvez isso não seja necessariamente agradável.
Em Lisboa, no novo Estádio da Luz, quem saiu perdendo foi Eusébio. No antigo estádio a estátua do maior jogador português de todos os tempos ficava num lugar de destaque, logo na entrada. Agora fica perto de uma das saídas no estacionamento. Eusébio merecia mais no palco que foi projetado pela mesma empresa responsável pelo Estádio Olímpico de Sydney.
Mas o Eusébio de verdade deve se sentir feliz com o novo local. Bonito, com luxo em alguns setores e um toque futurista na arquitetura, o Estádio da Luz é motivo de orgulho para os torcedores do Benfica. O gigantismo perdeu para o conforto: o antigo tinha 120 mil lugares, e o atual possui quase 65 mil lugares. Todos com ótima visão do campo. E para quem quiser fazer uma comprinha antes e depois do jogo, o centro comercial tem, além da boa loja oficial do clube, um supermercado. 
O estádio do Sporting tem uma curiosa convivência entre tradição e modernidade. Perto da moderna fachada está chumbado na parede o portão de ferro do primeiro estádio do clube. O antigo José Alvalade deu lugar a um complexo comercial que atende pelo pomposo nome de Alvaládia XXI. A visita oficial ao belo e amplo museu do clube e ao estádio começa por um hall que mais parece o de uma grande empresa. 
Vale a pena chegar cedo para ver o Sporting jogar. Você pode almoçar antes do jogo na ampla praça de alimentação e passear pelo centro comercial. Depois pode pegar um cineminha ou utilizar os outros centros de diversão do complexo. No andar vip, você pode ver o jogo confortavelmente instalado em camarotes que, durante a semana, são utilizados para empresas reunirem cliente e fecharem negócios. O Estádio José de Alvalade foi considerado cinco estrelas pela UEFA. Apesar do gosto duvidoso do excesso de cores nas cadeiras, é mais um dos estádios que, apesar do bom porte, deixa o torcedor bem íntimo do espetáculo, independentemente de onde ele esteja acomodado.
Fiquei impressionado com tudo o que vi. A primeira sensação é ficar um pouco deprimido: será que vamos chegar a ter algo próximo disso tudo no Brasil? Pode ser. Mas não é uma questão simplesmente de ter recursos. Esses aparecem. O que ainda não apareceu é a percepção de que o futebol é mais do que um esporte e de que o estádio é mais do que um local onde se senta para ver um jogo. Isso parece complexo demais? Não, nem um pouco. O conceito é simples: tudo deve ser feito para facilitar a vida do torcedor. Isso é um estádio moderno.