segunda-feira, novembro 16, 2009

Meu coração vagabundo

meu coração não se cansa
de ter esperança
de um dia ser tudo o que quer

A caminho do estádio a rotina é quase a mesma, a não ser pelo fato de ter ido trabalhar num domingo, coisas de estatística do sistema capitalista, ou papo furado de vencer na vida: tem que se dedicar; a hora é agora; força, garra, determinação. Tanto faz, importa mesmo que as dezenove e trinta haverá jogo e lá vamos nós. E sempre, invariavelmente, na esperança de vencer, se não na vida, no campeonato, pelo menos esse jogo.

Pra reforçar a fé, melhor evitar noticiários. Não confira tabelas, tendo assim, certeza de que mais uma vez o São Paulo vai ser campeão. E como nada pode estar ruim, que não possa piorar, quem assume às vezes de vice-líder e candidato a título é justo o Flamengo, que rouba música dos outros, mas mantém Adriano. E eu? Cadê Nilmar?

Mas meu coração não se cansa...

meu coração de criança
não é só a lembrança
de um vulto feliz de mulher
que passou por meus sonhos
sem dizer adeus
e fez dos olhos meus
um chorar mais sem fim

Soa ingênuo fazer de conta que o campeonato não existe por que o Inter deixou o G4. É que depois de entregar a liderança pelo menos três vezes (raposa e furacão em casa, flu fora) fica até chato falar sério. Já que virou piada, vou rir de mim. Pra não chorar.

Ao longo desse ano vi mais de um comentarista e também li, aqui e ali, uma crítica lúcida, constrangedora e que já não se estende à torcida desde 2008. O problema do Inter é não esquecer 2006. E deve ser difícil mesmo, foi tudo e mais um pouco do que de melhor se poderia sonhar. Mas é verdade absoluta que título não traz outros, a gente tem que ir de novo buscar. Sem contar a síndrome do “se não fiz, não existiu”. Não é porque não fui eu que inventei HIV, que vou transar sem camisinha. A lição de duas décadas inertes nasceu no gol de Sóbis e morreu no de Gabiru. O Inter não surgiu há três, mas há cem anos. E nestes foram tempos de glória e dor, INTERligados.

Não apaguem o Clube do Povo, pois este é campeão de tudo por legitimidade e não, memória seletiva.

Então começa o jogo. Vem Danilo com seu carrinho goleador. No meio da confusão sai o de Marquinhos, cheio de futuro e entusiasmo de menino. Quase Umbabarauma, ponta de lança africano, praticamente homem gol. Mais dois ou três pêlos no peito e tá pronto. Kleber traz a campo o que de positivo há de se ressaltar, joga muito. Pra não dizer que não falei de flores, tem que tomar um golzinho esse Inter, não consegue me deixar segura por noventa minutos. Tem que me fazer mulher de malandro: eu te amo, mas tu não presta.

E no fim, estamos todos na mesma arquibancada, querendo a mesma coisa e dependentes do craque nanico e marrento. D’Ale.

Ah, esse coração colorado...

meu coração vagabundo
quer guardar o mundo
em mim