terça-feira, junho 19, 2007

HISTÓRIA DO INTER - LIBERTADORES 1980


Escrito por Raul Pons


A epopéia colorada na final da Libertadores de 1980:

Primeiro jogo: 30.07 Internacional 0x0 Nacional

Os 20 dias que separaram a classificação colorada para a final (10.07) e a primeira partida da final foram marcados por polêmicas e por 5 compromissos pelo campeonato gaúcho.


Em 11.07, uma boa notícia: Batista renovou contrato por mais um ano com o Internacional.

Dia 13.07, os titulares enfrentaram o Internacional de Santa Maria, no Beira-Rio. Em um jogo disputado, o Colorado venceu o Coloradinho por 3x2. No mesmo dia, o goleiro Bagatini era emprestado ao Vitória BA.

No dia 16.07, um time misto, com Falcão em campo, bateu o Farroupilha, no Beira-Rio, por 1x0. O Colorado jogou mal e teve dificuldades de superar a retranca do Farrapo. Somente aos 42' do 2º tempo saiu o gol. A partir dos 20 minutos de jogo a torcida passou a vaiar o time. Até Falcão foi vaiado, ao cobrar mal uma falta.

18.07 - Foi sorteado o mando de campo da final, e o Colorado perde a chance de jogar a última partida em casa.

20.07 - rádios de São Paulo anunciam a venda de Falcão para a Roma.

21.07 - o time reserva empata em Bagé, com o Guarany, 1x1. No mesmo dia, o CD colorado reuniu-se e o maioria dos conselheiros, informados de que a Roma estaria oferecendo 3 milhões de dólares por Falcão, concordaram com a venda do craque.

23.07 - Charge na ZH: um globo terrestre, no RS, os gritos de "ucho, ucho, ucho, o papa é gaúcho"; na Itália "ano, ano, ano, o Falcão é italiano". No mesmo dia, ao entra em campo para treinar, Falcão é xingado de mascarado por um garoto.

24.07 O Internacional joga com os titulares em Lajeado, e perde por 1x0 para o Lajeadense. Na saída de campo, Mário Sérgio promete o "título da América à torcida".

25.07 - Falcão é vendido à Roma. Em 26.07, ZH estampa na capa: "Falcão milionário". Abaixo, uma foto do craque, já com a camiseta da Roma. No mesmo dia, ZH publica uma cópia do contrato. Falcão estava sendo vendido por 1.700.000,00 dólares, em 3 vezes: 578 mil no ato, 561 mil um ano depois e 561 mil dois anos depois. Asmuz diz que há outros dois documentos e que o valor total é de 3 milhões. A direção da Roma e o empresário de Falcão desmentem Asmuz quanto ao valor.

27.07 - Falcão jogaria contra o Esportivo, mas a direção colorada demora para fazer o seguro para o jogador, em caso de contusão, e ele fica de fora. Mesmo assim, os titulares (três dias antes da final da Libertadores!) vencem o Esportivo por 4x1.

29.07 - ZH anuncia desmanche do time colorado: Chico Espina estaria indo para o Flamengo, Jair e Adílson para a Europa e Valdir Lima para o Vitória BA. No mesmo dia, uma notícia preocupante. A direção oferecia Cr$ 300 mil pelo título, mas os jogadores queriam mais. No mesmo dia, em entrevista, Falcão foi perguntado se em 1983, ao receber passe-livre da Roma, poderia jogar no Grêmio. Resposta: "Não, o Grêmio não poderá me contratar, porque eu não aceitarei. No fim do meu contrato com a Roma eu volto para o Internacional".


Em 30.07, lá estava a torcida colorada, no Beira-Rio. As diversas organizadas coloradas enfeitavam o estádio: Camisa 12, Super Fico, Falcão Povão, Coração Colorado, PX-Inter, Sangue Rubro, Príncipe Jajá, Pulmão-Batista e El Maestro (em homenagem ao Mário Sérgio). Na entrada do time em campo, um repórter perguntou ao Falcão: "Está louco para ir embora?". Resposta: "Não, estou louco para ganhar este jogo. Não posso pensar em outra coisa a não ser nesse título que é tão importante para nós". A direção queria fazer uma homenagem ao craque, na sua despedida do Beira-Rio, mas Falcão, não aceitou, argumentando que era dia de decisão, não de festa.


O Nacional entrou em campo jogando pelo empate. Marcava em todo o campo, impedindo o Internacional de trocar passes até mesmo na intermediária. Esparrago colou em Falcão e Chico Espina sumiu entre Blanco e De León. O Internacional parecia sem pressa. Nos contra-ataques, os uruguaios levavam perigo. Bicca passava sem dificuldades por André Luiz (no final do jogo, o lateral disse ter sido a pior partida da sua vida). O Nacional chega a criar três chances de gol, contra apenas uma do Colorado.

Na 2ª etapa o time melhora, ao desistir das bolas lançadas em profundidade e passar a tentar vencer a marcação uruguaia, com a habilidade dos jogadores brasileiros. Adavílson entrou em campo aos 24', melhorando a movimentação da equipe. Mesmo assim, o Colorado não consegue vencer o forte esquema defensivo do Nacional. Alguns torcedores elegem Falcão como culpado e vaiam o craque, chamando-o de pipoqueiro e canela de vidro. O time, em campo, fica nervoso, principalmente os menos habilidosos. Falcão responde com sua técnica. Em um lance, aplica um chapéu humilhante em Esparrago, em outro lance, dá um corte espetacular em um zagueiro uruguaio e quase encobre Rodolfo Rodríguez. Mas não era a noite do Internacional, e o marcador ficou em branco.

Ficha do jogo

Internacional 0x0 Nacional

Data: 30/07/1980

Estádio: Beira-Rio

Público: 55.623 pagantes (60.501 no total)

Renda Cr$ 11.750.140,00

Juiz: Jorge Romero (argentino)

IN: Gasperin; Toninho, Mauro Pastor, Mauro Galvão e André Luís; Batista, Tonho e Falcão; Jair, Chico Espina (Adavílson) e Mário Sérgio

Técnico: Ênio Andrade

NA: Rodolfo Rodríguez; Moreira, Blanco, De León e González; Espárrago, De La Pena e Luzardo; Bicca, Victorino e Pérez

Técnico: Juan Mujica

06.08 Nacional 1x0 InternacionalApós o 1º jogo da final, no dia 03.08, o Internacional voltou a campo, pelo campeonato gaúcho. Com três titulares em campo, o Colorado perdeu para o Caixas por 2x0. Era um sinal de mau agouro: derrota em um estádio chamado Centenário, e sendo prejudicado pela arbitragem, que anulou dois gols colorados e deixou de marcar um pênalti.Mas o Internacional mostrou que estava mobilizado para a partida. Cláudio Mineiro, um mês depois da sua cirurgia no joelho, ofereceu-se para jogar a final. Mesmo sendo chamado de louco pelos seus companheiros, entrou em campo no estádio Centenário. Além dele, Mário Sérgio, Toninho e Batista também iam jogar no sacrifício.

No Uruguai, o Nacional utiliza todos os recursos, lícitos e ilícitos, para chegar ao título. Os uruguaios chegaram inclusive a permitir, no banco de reservas, apenas o técnico Ênio Andrade, o preparados físico Gilberto Tim e o médico colorado. Reservas e dirigentes tiveram de ficar no meio da torcida uruguaia. Além disso, na imprensa uruguaia, dirigentes do Nacional criticaram duramente o Peñarol, que emprestou seu campo de treinamento ao Colorado.
O Internacional começou o jogo tocando a bola, para ganhar tempo e acalmar os jogadores. Mas logo aos 3', Chico Espina rouba a bola de Blanco e cruza para Adílson, que chuta para fora. Aos 11', Morales acerta um sem-pulo, mas Gasperin faz uma boa defesa. O Nacional tenta evitar os avanços colorados, mas Falcão, aos 18' e 24', com chutes de fora da área, obriga Rodolfo Rodríguez a fazer grandes defesas.Aos 35', o lance decisivo da partida: o juiz marca uma falta inexistente de Mauro Galvão em Morales. Enquanto os jogadores colorados reclamavam, Morales cobra rapidamente, passando para Moreira, que cruzou para Victorino, livre, marcar: Nacional 1x0.

Aos 36', Adílson e De La Peña caem em campo. O juiz permite que o departamento médico do nacional entre em campo, mas não aceita que Adílson seja atendido no gramado, obrigando o jogador a sair de campo e só autorizando sua volta minutos depois. A situação foi tão descabida que o uruguaio Eduardo Roca Couture, delegado da Conmebol, teve de intervir e exigir do árbitro que desse tratamento igual aos dois clubes. Aos 38', com o Internacional apenas com 10 jogadores em campo, Bicca quase fez 2x0.

Na ida para o vestiário, no intervalo, Jair e Mário Sérgio quase trocam socos. Falcão e Batista os empurram para dentro do vestiário e Falcão acalma os brigões. Mário Sérgio cobrava mais raça de Jair.No 2º tempo, o Internacional voltou decidido a pelo menos empatar a partida. Aos 2' Rodolfo Rodríguez tem de defender uma cabeçada de Jair. Aos 9', Cláudio Mineiro não resiste mais às dores no joelho operado e é substituído por Bereta. Aos 11' De León mete a mão na bola dentro da área, mas o juiz marca a infração fora da área.O ímpeto colorado, aos poucos, começa a diminuir, frente à marcação violenta do Nacional. Aos 24' Jair chuta e obriga Rodolfo Rodríguez a defender em dois tempos.No finalzinho, quase o gol salvador: aos 41', Jair, na pequena área, cabeceia para as redes, mas Rodolfo Rodríguez faz uma defesa milagrosa. Quatro minutos depois, o árbitro terminava a partida. O sonho do título sul-americano seria adiado por 26 anos.

Ficha do jogo

Internacional 0x1 Nacional

Data: 06/08/1980

Estádio: Centenário (Montevidéu)

Público: 65.000 pessoas

Juiz: Edson Pérez (peruano)

Gol: Victorino 35' do 1º

IN: Gasperin; Toninho, Mauro Pastor, Mauro Galvão e Cláudio Mineiro (Bereta); Batista, Falcão e Jair; Chico Espina, Adílson e Mário Sérgio

Técnico: Ênio Andrade

NA: Rodolfo Rodríguez; Moreira, Blanco, De León e González; Espárrago, De La Peña e Luzardo; Bicca, Victorino e Morales

Técnico: Juan Mujica