terça-feira, setembro 15, 2009

Muitas Lembranças, Um Único Desejo!

Eu já nasci colorado. Digo isso por duas razões. A primeira é porque a intensidade com que me emociono com o Inter é tanta que nem mesmo influências familiares ou vitórias em campo justificariam. Quando vejo documentários sobre a história do clube, imagens da década 40, coisas assim, me emociono com uma facilidade assustadora. A segunda razão são as minhas lembranças de infância, minhas lembranças de ser colorado.

Em 1981, lembro de ter assistido à final do Campeonato Brasileiro entre São Paulo e Grêmio. E me lembro de ter vibrado com a agressão do centro-avante Serginho Chulapa no goleiro Leão. Talvez essa seja a minha primeira lembrança consciente de ser colorado. Sei que ela não tem nada de politicamente correto, mas não me venham exigir isso de uma criança de 5 anos de idade! Não foi um sentimento bonito. A agressão é algo que hoje eu reprovo com veemência. Mas foi um sentimento infantil, puro (acreditem), e foi uma expressão do meu coloradismo. Não por acaso, no ano seguinte, durante a Copa do Mundo, na hora de jogar bola com os amigos, eu “era” o Serginho Chulapa.

Naquela época, meus pais, assim como os do Louis (conforme o emocionante relato que ele postou aqui ontem), também haviam deixado sua terra natal para tentar a vida em outros pagos. Só não foram tão longe. Eu morava em Cascavel/PR. Quase dá para dizer que é um posto avançado do Rio Grande do Sul no oeste do Paraná. Mas o fato é que, naquela época, não havia celular, TV a cabo nem internet. Então, torcer para o Inter, pra mim, era aguardar os Gols do Fantástico no domingo à noite.

Lembro que o Inter jogou duas vezes em Cascavel durante a década de 80. Nas duas, eu fui ao estádio com o meu pai. Na primeira, Cascavel 0 x 2 Inter, amistoso. Não sei ao certo em que ano foi, nem quem jogava, muito menos que fez os gols. Alguns anos mais tarde, assisti a um Inter 1 x 1 Palmeiras, válido por algum torneio nacional. Desse jogo, só me lembro que o goleiro era o Leão, o mesmo que tomara um pisão do Chulapa em 81.

Com o passar dos anos, a evolução dos meios de comunicação e o retorno ao Rio Grande do Sul, passei acompanhar o Inter bem mais de perto. Mas era cada vez mais difícil acompanhar o Inter! Ao contrário do Louis, que desembarcou em Porto Alegre em 1979, para ver o Inter Campeão Brasileiro Invicto, minhas lembranças de infância são de um Inter guerreiro, brigador, mas não de um time vencedor. Fui forjado nas derrotas!

Em 1987, Copa União. Inter x Flamengo. Não deu. Então, no Campeonato do ano seguinte, terminado nos primeiros meses de 1989, venceríamos o grenal do século para perder a final contra o Bahia. Mas ainda teríamos a Libertadores e quando, tudo indicava que seríamos Campeões: Olímpia!

Em 1992, um prêmio de consolação: a Copa do Brasil! A Copa do Brasil é igual a prêmio de Miss Simpatia em concurso de Beleza. Sai com faixa, todo mundo aplaude, “como ela é querida”, mas não tem nada mais sem graça. Ah, mas dá vaga na Libertadores! É, pois é. Também me lembro bem da Libertadores de 93.

Pois a década de 90 foi o auge da pindaíba. 1995, nos faltou 1 gol para passar às semifinais. Quem passou foi o Fluminense, que perdeu para o Santos que perdeu para o Botafogo, numa partida em que o melhor em campo foi Márcio Resende de Freitas. Voltaremos a comentar esse nome ainda no texto de hoje.

O ano de 1996 foi de mais uma pérola na última rodada. Jogamos contra o Bragantino, já rebaixado. Repórteres da época relatavam que os jogadores do time paulista nem concentraram, chegaram em seus carros particulares para o jogo. Perdemos um pênalti e o jogo por 1 x 0. O ano acabou mais cedo. Naquela época, quem não ficava entre os 8 primeiros encerrava as atividades antes. Daí não tinha bilheteria, cota de TV, muito menos plano de sócios que se sustentasse. Ficamos em 9º, assistindo pela TV a 8ª colocada, Portuguesa, chegar à final e entregar o título na Azenha.

Em 1997, ficamos em 2º na primeira fase, para pegar um grupo semifinal com Santos, Atlético/MG e Palmeiras. Cada ano era uma fórmula diferente, tá louco! Só sei que não chegamos, de novo!

Em 1999, o clube priorizou a Copa do Brasil. Montou um time caro, repatriou Dunga, elaborou um audacioso plano de sócios. Mas um inexplicável 4 x 0 contra o Juventude em pleno Beira-Rio fez o Inter se desmantelar ao longo do ano, para acabar salvo do rebaixamento pelo topete do Dunga! Há dez anos, uma lição que parece ainda não ter sido completamente compreendida no Beira-Rio: quando não se está na Libertdores, não se prioriza o primeiro semestre.

Só que 2001 seria o ano de mais um golpe dolorido na torcida colorada. O clube assumira a postura de primo pobre. Fotos de cofre vazio na capa do jornal, promessa de título só depois de uns 5 ou 6 anos, mas o time de garotos comandados pelo caricato Zá Mário, correspondia em campo. Só que, como eu disse, era um time de garotos. E o guri Diogo Rincón me perde um golo na cara do golo. E o Leandro Guerreiro se fresqueou na lateral e, bueno... mai um ano na fila.

Segue o martírio em 2003. Mais um time de guris. Diego, Diogo, Daniel Carvalho e Nilmar, agora sob a batuta do incipiente Muricy Ramalho. Última rodada, São Caetano. Bastava o empate. Lembram do Bragantino em 96? Fichinha! O São Caetano tinha o pior ataque do campeonato e nos fez 5 x 0 no Anacleto Campanella. Eita!

Mas o mais doloroso de todos, e pra mim foi mais doloroso que a derrota contra o Olímpia em 89, foi o Brasileirão de 2005. Perder para o Olímpia foi um golpe duro, fatal, inesperado. Mas o Brasileiro de 2005 foi morrer aos poucos, maltratado, torturado, de todas as formas. Luiz Szweiter, Kia Jorabchian, Márcio Resende de Freitas.

Agora, em 2009, depois de tantos anos de sofrimento, mas também depois de ver o clube se reestruturar e ganhar o mundo, literalmente, enlouqueço quando vejo o Inter apontado como favorito para ganhar o título de modo quase unânime pela imprensa nacional e vacilar tanto ao longo do ano.

Já se passaram 30 anos! É muito tempo! Pra quem se criou colorado como eu, na época das vacas magras, agüentando a gozação dos rivais com base naquele título de 79, não dá mais pra esperar! Novos tempos vieram, novos títulos também, mas eu tenho três décadas de sofrimento entaladas na goela que estão loucas para se converterem num grito, a cada rodada do Brasileirão!

Não sei a quem faço este apelo passional e desesperado! A jogadores, Comissão Técnica, Dirigentes, torcedores ou a qualquer ente abstrato que atenda às preces direcionadas aos “Deuses do Futebol”. Resumo meu sentimento num verso do canto da torcida que diz: “E vamos Inter só te peço este Campeonato!” Não agüento mais esperar para gritar a plenos pulmões, ao lado do meu pai e do meu filho colorados: “INTER, CAMPEÃO BRASILEIRO!”