sábado, outubro 24, 2009

Deficiente, mas libertário

Mais que uma simples escolha, o macaco é símbolo do racismo alheio
Sendo que durante os anos 40, o grande time "Rolo Compressor" dominou o cenário futebolístico do Rio Grande, com diversos grandes jogadores negros, para desespero do então Time do Moinhos de Vento, que só em 1952 passou a aceitar negros em seu quadro social.
Eu, que sou branco e absolutamente abjeto a preconceitos, talvez escute mais manifestações racistas do que negros, afinal, racistas não fazem seus comentários racistas na frente de negros. E é comum encontrar gremistas que se referem ao Internacional como "aquela gente" (com certo complexo de Dona Florinda), "aquela negrada", aquela... enfim... "Macacada".
E o câncer do racismo por parte desses gremistas, se reflete no uso constante da denominação "macacada" aos torcedores colorados e em imitações de barulhos simiescos nos estádios de futebol. E essas atitudes são fatores de estímulo e divulgação do racismo.
Não me importo com essa parcela racista da torcida gremista. Gente assim, não merece, de fato, nenhuma consideração. O que lamento e sempre lamentei foram as teses da parcela inocente da torcida gremista, que não é racista, inclusive negros, mas que ignoram a origem racista da denominação "macaco".
Essa inocência, circula pela Internet em algumas tentativas de auto-preservação ou de má-fé mesmo de gremistas que tentam REESCREVER a História e negar o racismo tricolor. Usam-se, para isso, de absurdos históricos, teses não comprovadas, fotos escurecidas para dizer, por exemplo, que um cara mulato é negro, que um cara bronzeado é negro...
Eis que, essa semana, a Diretoria do Inter, aquela que reinventou o símbolo, aquela que NUNCA utilizou a bela história do SACI, deixando-o praticamente no esquecimento, aquela que atropela o Estatuto do Clube, aumenta mensalidades sem consultar o Conselho Deliberativo... inventou um "Novo Mascote", um macaco(!).
Para delírio dos gremistas inocentes que viram a sua tese de que o torcedor colorado se auto-denomina "macaco", de forma espontânea (leia aqui).
Depois dessa iniciativa autoritária e desrespeitosa com a história do Inter, chamar um colorado de macaco (inclusive negro) não será mais racismo. Mas "apenas" uma referência inocente ao "novo mascote do Internacional" (que, dizem, não substituirá o SACI). Além disso, fora do Rio Grande do Sul essa história sempre foi péssimo para a imagem do Grêmio. E mais que uma referência inocente ao nosso mascote por parte de gremistas, o país inteiro estará autorizado a tratar os colorados por essa denominação.
E o marketing profissionalizado do Inter (todos lá são remunerados) que deveria trabalhar, zelar, pela imagem do Clube, sua marca e sua identidade histórica para comercializá-la e fazer negócios, associa ao Inter a imagem de um macaco, um animal que facilmente é alvo de piadas, que pode dar idéia de involuido e de imitador.
Reação negativa e uso de mentiras
Após a divulgação da iniciativa, tiveram que correr atrás e explicar-se, para isso, foram incoerentes e usaram-se de mentiras. Na Rádio Guaíba e no jornal Correio do Povo, um Diretor declarou que o SACI (1) "perdeu força", (2) é "tabagista" e (3) "deficiente físico".
Inicialmente, a perda de força de um símbolo do Clube decorre exatamente da não utilização desse personagem histórico (que deveria ser feito pelo marketing). Tanto é que até hoje utiliza-se o desenho feito pelo Ziraldo para a Copa União de 1987. Segundo, o tabagismo há tempo foi resolvido de uma forma bem simples pela Diretoria da FECI (Função de Esporte e Cultura do Internacional) que havia criado o Projeto Saci Colorado: tiraram o cachimbo. Simples! Quanto a chamar o personagem da cultura popular de "deficiente físico", como se isso fosse uma ofensa, demonstra-se ignorância.
No página da Sociedade dos Observadores de SACI, de um grupo que defende exatamente a valorização da cultura nacional, lemos uma breve história do Saci: "No início era um indiozinho protetor da floresta. Tinha duas pernas. Depois foi adotado pelos negros e virou negro. A perda de uma perna tem várias histórias. Uma delas é que ele foi escravizado, ficou preso pela perna, com grilhões, e cortou a perna presa. Preferiu ser um perneta livre do que escravo com duas pernas. É um libertário, então. Dos brancos, ganhou o gorrinho vermelho, presente em vários mitos europeus. O gorrinho vermelho era também usado pelos republicanos,durante a Revolução Francesa. Na Roma antiga, os escravos que se libertavam ganhavam um gorrinho vermelho chamado píleo".
Como se vê, é uma bela história. Altamente positiva para a imagem do Clube e para divulgá-lo pelo mundo para crianças, adultos e idosos. Sem estuprar a história, pelo contrário, valorizando a nossa identidade popular e, de quebra, a cultura popular do folclore brasileiro.
Incoerência de doer
Também justificaram o apelo do macaquinho, porque o público infantil gosta do "Bobby Jack"(aqui). E os royaltes? São indevidos, claro. Não se está usando o desenho, mas algo inspirado no desenho. De mesma forma, que o Clube não precisa utilizar o Saci do Ziraldo, embora possa se inspirar nele.
Em outra justificativa incoerente, disseram que o macaco está sendo bem aceito, pois já recebeu mais de 10 mil sugestões de nomes. Se está recebendo tanto apoio, o que justifica essas notas, entrevistas na imprensa? Outra incoerência. E quem escreve uma sugestão, não quer dizer que esteja apoiando. Eu, por exemplo, sugeri o nome "Saci", gremistas estão sugerindo "morangotango" em massa em sua comunidade... Divertindo-se com a piada pronta que receberam essa semana.
Claro que não vão acabar com o Saci
Não falo tudo isso como Conselheiro, não aponto nomes, grupos políticos, nem nada. Falo como um torcedor colorado que sempre defendeu a História do Clube e luta pela preservação da identidade colorada. Fiquei assustado com a arbitrariedade com que, mais uma vez, um símbolo do Internacional foi desmerecido e atacado de forma incoerente e mentirosa. Também ficou evidente a total falta de sintonia da Diretoria com a realidade das ruas e de consciência sobre a importância de preservar ícones históricos do Clube, por ética e também por interesses comerciais.
O Saci à tudo vence. Ele não precisa de divulgação por quem não o respeita. É um defensor da floresta, que aparece num rodopio para aprontar travessuras. Ele foi visto pela última vez após um gol do Internacional, pulando em direção à popular. Claro que não vão acabar com ele, nem tentarão, pois sabem tratar-se de tarefa impossível. E isso deve doer para alguns. Deve doer saber que o Clube é do Povo. E o povo é maior do que eles e tem poder sobre eles.
Dia 31 de Outubro é Dia do Saci!
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Sociedade dos Observadores de Saci: http://www.sosaci.org/
Instituto Nacional de Propriedade Industrial: http://pesquisa.inpi.gov.br/
O Inter tem registro de um Saci (feio de doer, mas tem). Proc. Nº. 814183840.