terça-feira, outubro 20, 2009

Macacos Me Mordam

Chamou-me atenção, ontem, uma discussão na internet sobre o mascote utilizado pelo Inter no Projeto Interagir. Foi adotado um macaquinho usando a camisa do Inter e há uma campanha para escolha do seu nome. A polêmica reside, essencialmente em dois pontos: 1) por que não adotar o mascote do clube, o Saci? 2) por que um macaco?

O Saci, mascote histórico do clube, é um personagem do folclore brasileiro consagrado na literatura por Monteiro Lobato:

"O saci – começou ele – é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte e atropelando quanta criatura existe. Traz sempre na boca um pitinho aceso, e na cabeça uma carapuça vermelha. A força dele está na carapuça, como a força de Sansão estava nos cabelos. Quem consegue tomar e esconder a carapuça de um saci fica por toda a vida senhor de um pequeno escravo."

Mas que reinações ele faz? – indagou o menino.

Quantas pode – respondeu o negro. – Azeda o leite, quebra a ponta das agulhas, esconde as tesourinhas de unha, embaraça os novelos de linha, faz o dedal das costureiras cair nos buracos. Bota moscas na sopa, queima o feijão que está no fogo, gora os ovos das ninhadas. Quando encontra um prego, vira ele de ponta pra riba para que espete o pé do primeiro que passa. Tudo que numa casa acontece de ruim é sempre arte do saci. Não contente com isso, também atormenta os cachorros, atropela as galinhas e persegue os cavalos no pasto, chupando o sangue deles. O saci não faz maldade grande, mas não há maldade pequenina que não faça."

A adoção do Saci como símbolo colorado teria ocorrido como uma adaptação das charges de jornal que utilizavam a figura de um menino negro para representar os colorados. Nada mais apropriado para um clube que nasceu com princípios de abertura étnica e que consagrou tais ideias, especialmente a partir do final da década de 20, quando passou a utilizar jogadores oriundos da Liga da Canela Preta. Promovendo essa integração dentro de campo, naturalmente a torcida colorada também passou ser a maior na comunidade afrodescendente.

Mas, então, por que agora, justamente no ano da celebração do centenário, o clube abre mão de usar esse símbolo em seu programa de integração social? Será que a figura do menino de uma perna só, em tempos de inclusão social, não seria adequada aos projetos de um clube inspirado em ideais de pluralismo e igualdade? Seja lá qual for a razão pelo esquecimento do Saci, chama ainda mais atenção o fato do mascote escolhido ser um macaco.

Em se tratando de Inter, o apelido “macaco” sempre foi utilizado de modo pejorativo, racista, por torcedores adversários incomodados com a superioridade técnica de um time que ousava usar atletas de cor. Aliás, essa é uma expressão universal do sentimento racista. Na Espanha, recentemente, se viram episódios dessa natureza contra o jogador camaronês, Samuel Eto’o. Aqui no Brasil, este ano, o jogador Elicarlos, do Cruzeiro, foi alvo desse mesmo ato de preconceito, feito por um jogador estrangeiro.

Considerando que a imagem do macaco em relação à torcida colorada é viciada, na sua origem, pelo sentimento reprovável do preconceito racial, entendo que não deveria jamais ser explorada de forma oficial. Ainda mais num clube que foi fundado sob ideais de igualdade étnica.

Somente quem sofre o preconceito é que pode julgar se é ou não uma ação agressiva, ofensiva. Ainda que milhares de afrodescendentes não se sintam afetados pela alusão ao macaco, vinculada exclusivamente em relação ao clube de futebol para o qual torcem, basta que um único cidadão tenha sua honra subjetiva abalada para que o ato se torne reprovável.

Eu, na condição de colorado, me orgulho da identidade cultural do meu clube e de sua história de pioneirismo contra o preconceito racial. Creio que a figura do Saci, o menino negro da carapuça vermelha, não poderia representar melhor o clube do povo do Rio Grande do Sul, ainda mais como símbolo de ações sociais da instituição.

Macaco? Sinceramente, quanta falta de sensibilidade, para não dizer, respeito!