quarta-feira, março 03, 2010

Afronte

Estudar, trabalhar, abdicar, perseverar, trabalhar, evoluir, trabalhar, planejar e trabalhar mais um pouco.

Rotina necessária e presente na luta diária por um salário digno e realização profissional.

Graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado, cursos de especialização, habilidades interpessoais, comprometimento, disciplina, facilidade de comunicação e trabalho em equipe.


Visão, planejamento e liderança.

Inglês e espanhol fluente, francês e/ou alemão/italiano básico.

Experiência profissional vasta nos mais diversos cargos e responsabilidades, com vasta gama de atividades desempenhadas ao longo de décadas de árduo e incansável labor.

Não, não se trata de currículo de candidato a super herói ou qualquer coisa que o valha.

São apenas alguns dos requisitos para fazer parte da microscópica parcela da população brasileira que possui salário mensal na faixa dos 5 dígitos.

Ao menos, é claro, que você seja um playboy, receba uma herança milionária ou seja afortunado para estar no lugar certo na hora certa e circunstancialmente faça fortuna.

Existe, é claro, exceções: você pode ter uma habilidade única, um talento que o distingue e o torna especial.

Este talento pode ser uma capacidade singular de entreter, de compor ou de atingir as grandes massas.

Poucos são os privilegiados que possuem tal dom.

Walter, menino de origem humilde, certamente o possui. É um jovem de imensa potencialidade.

Infelizmente, falta-lhe estrutura, maturidade e discernimento.

Sobra-lhe afobação e rebeldia.

Acho legítima a reivindicação de reajuste salarial.

No entanto, é condenável a maneira com que a faz, através da exposição pública.

Alicerçado na atitude infantil de falta a treinos e na reação intempestiva a críticas, que ao meu ver, foram fundamentadas e construtivas Walter não atinge seus objetivos, e prejudica, além do clube, fundamentalmente a si mesmo.

E por mais abundante que seja o talento e a capacidade de alguém, nada se conquista sem trabalho.

O único lugar onde a palavra “sucesso” vem antes de “trabalho” é no dicionário.

Torço para que mais uma promissora carreira não seja jogada no lixo.

É simplesmente lamentável ver um jovem talento definhar nas más companhias, nos conselhos oportunistas, na crença do caminho “mais rápido e fácil” e sobretudo, na falta de hombriedade em admitir que necessita ajuda e aconselhamento profissional.

Faça um exercício de imaginação caro leitor, e pense quantos jovens no Brasil, e talvez no mundo, com menos de 20 anos, sem cultura e sem conhecimento, possuem tal remuneração e tantas possibilidades e portas passíveis de serem abertas.

Ouvir a declaração da mãe de um jovem que ganha 15 mil reais mensais - clique para link - (algumas fontes citam 20 mil) dizendo passar necessidade e não ter como pagar sua própria moradia, e até mesmo adquirir um cartão de celular, é um afronte num país onde famílias são sustentadas com um mísero salário mínimo.

Como já dizia um amigo meu, “Deus dá nozes aos desdentados.”

Walter encontra-se numa encruzilhada, e suas decisões, e principalmente seus gestos poderão desviá-lo do caminho do sucesso e leva-lo ao ostracismo.

Se optar pelo caminho mais árduo, os sacrifícios serão inevitáveis. Mas também serão as recompensas.

Existe uma frase, a qual gosto muito, que diz que devemos mensurar nosso sucesso não através do que conquistamos em si, mas pelo que tivemos que abrir mão para alcança-lo.

Que não apenas Walter, mas todos nós possamos ter sabedoria em nossas escolhas.