quarta-feira, maio 05, 2010

Desabafo

Refletindo sobre o momento atual do clube, vi-me envolto em dúvidas se deveria escrever um texto motivacional, conclamando torcida a lotar o gigante e empurrar à vitória um time que não empolga. Também me questionei se o texto deveria ser duro, em tom de desabafo, ou até mesmo uma análise estritamente pessoal dos problemas crônicos que nossa política de futebol vem apresentando.Por fim, deparei-me com um texto que extravasa com perfeição o meu atual sentimento. Gostaria de compartilhar com vocês. O texto é de autoria de Alexandre Perin, colorado, assíduo frequentador da comunidade do clube no Orkut, analista de TI do grupo RBS e responsável pelo blog Almanaque Esportivo (clique).

Segue o texto:

"OPINIÃO: Sem mudança de fotografia, Inter 2010 não vai a lugar algum"
por Alexandre Perin

Ao longo de 15 anos analisando futebol de maneira mais atenta, percebi que um fator de sucesso das equipes é a continuidade do trabalho. Ou seja, sem modificações radicais no elenco de seis em seis meses, com quinze atletas saindo e vinte entrando no grupo principal. Com o advento da “Lei Pelé” e dos contratos longos, isto se tornou ainda mais necessário. Porém, ao contrário do que muita gente pensa, também percebi que outro fator de sucesso dos grandes clubes é, de tempos em tempos, fazer uma “oxigenação” no grupo. Uma “faxina” ou ainda uma “MUDANÇA DE FOTOGRAFIA“.

Isto se impõe quando o clube está repleto de jogadores com custo alto e retorno duvidoso, jogadores que já estão no clube há algum tempo, tiveram sucesso mas hoje jogam no “carteiraço“, quando o vestiário está “viciado”, com lideranças antigas e acomodadas.IMPORTANTE: Aviso aos torcedores “apoio incondicional”, “estamos na Libertadores e os outros não”, “Carvalho eterno, quem é tu para criticar?”: parem de ler aqui. Obrigado! Bom, vamos continuar.

Em 15/11/2009, o vice-presidente de futebol Fernando Carvalho vaticinou: “90% do elenco da Libertadores já está no Beira-rio. Relembrando o contexto da frase: o Inter disputava o título do Brasileirão, depois de uma campanha absolutamente irregular, mas a imprensa esportiva gaúcha especulava em uma mudança radical no elenco após o término da temporada. Achei que a frase era apenas para dar uma amenizada e manter o foco. Mas Carvalho, ao contrário de outras vezes, cumpriu a promessa: manteve praticamente todo o time. 80% dos titulares colorados em 2010 já estavam aqui em 2009.

Imediatamente falei para os amigos: “2010 já começa errado”. Defendia que em 2009 o Inter aos poucos deveria mudar o elenco do 1º semestre, com contratações pontuais, para chegar com força no segundo semestre. Como não fizeram, 2010 era o momento exato de uma mudança radical: nova comissão técnica, jogadores e também de dirigentes, mais motivados, com menos vícios. Para 2010, deveria ser aplicada uma mudança radical no time. Deveriam ser contratados dois jogadores de exceção, um atacante e um zagueiro, garimpados destaques do ano anterior e utilizar melhor as categorias de base. Nada disto foi feito.

Repetindo um comportamento arrogante e egocêntrico das gestões de José Alberto Guerreiro e Luís Carlos Silveira Martins no Grêmio e, em alguns momentos, de Paulo Odone, a diretoria do Internacional parece-me totalmente perdida. Vive em um mundo irreal, no qual todas as ações são corretas, não cometem erros e as críticas da torcida e da imprensa são equivocadas. Por pura comodidade, mantém jogadores que claramente não estão mais no auge do seu futebol, ao invés de tomar decisões duras como dispensas por indisciplina ou rendimento ruim em campo.

Pior, quando um jogador com o custo benefício discutível como Edu finalmente joga um jogo bem, diz “O Edu calou a boca da torcida“. Um verdadeiro absurdo, tão ruim quanto o DVD da arbitragem do ano passado, que só queimou Carvalho no centro do país. A humildade desapareceu e hoje vejo mais críticas da diretoria para os torcedores do que reconhecimento das falhas do elenco. De vez em quando tenho que ler: “temos um dos melhores elencos do Brasil”, quando não se tem um zagueiro e atacante indiscutível. Piada, claro.

Demoram meses para diagnosticar problemas grosseiros (quem não esquece dos 24 meses entre 2008 e 2009 sem lateral direito, com desculpas esfarrapadas de que “nosso perfil é de um lateral marcador”?). Desde a saída de Sidnei o Inter não tem um zagueiro veloz. Quando Danilo Silva se firmava, também foi embora. Vendido, é claro. Falta um primeiro volante de ofício, como Fabinho (Cruzeiro), Pierre (Palmeiras), Rodrigo Souto (São Paulo), Maldonado (Flamengo).

Os problemas no ataque são antigos e beiram ao ridículo, como a contratação de Kléber Pereira por um salário elevadíssimo, dispensado por insuficiência técnica do Santos. De um ataque que tinha Fernandão, Iarley, Nilmar e Alex em 2008 para um ataque de Alecssandro, o homem que some nos jogos decisivos, Wálter (uma incógnita), Edu, Kléber Pereira e Taison ( três nadas). Isto é emblemático. Tão emblemático quanto o que vimos em 2010. Depois de um Gauchão muito bom, o Inter trouxe Éverton, do Caxias. Sabem qual é a origem dele? Ele era reserva de um Grêmio que tinha Ramón, Tuta, Douglas, Amoroso. Pesadelos até para a Geral do Grêmio.

Um ataque horroroso que se não fosse talentos individuais de Carlos Eduardo, Lucas, Lúcio e Diego Souza não teria chegado nem perto das finais da Libertadores. Aliás, passou da primeira fase justamente graças a um gol de Éverton, que nem assim teve vida longa na Azenha e foi dispensado logo depois. Ele era do tempo que o torcedor do Inter olhava para o elenco colorado, que tinha Alexandre Pato, Fernandão, Iarley, Alex e até mesmo o veterano Christian e dava risadas do ataque gremista. Hoje é o inverso: o ataque tricolor dá de relho no colorado. Sem discussão.

Depois de anos endeusando jogadores raçudos e ruins, em um complexo sentimento de mediocridade pela “raça”, o Grêmio voltou a apostar na qualidade. Basta comparar Mário Fernandes e Rodrigo com Índio e Bolívar. Ou Jonas e Borges com Alecssandro e Taison. Pode até ser que Éverton dê certo e ele tenha evoluído muito desde os tempos no Olímpico. Mas é uma aposta, de custo baixo e retorno incerto. A diretoria ousada que comprou D´Alessandro, Nilmar, Fernandão, Tinga, Jorge Wagner, Magrão, Guiñazu não existe mais. Isto é fato.

A lista de dispensas que eu faria e os motivos. Algumas são polêmicas e podem ser discutidas, mas as demais não vejo nenhum problema. Alecssandro seria reserva, jamais titular de um time de ponta:

Lauro - Se como titular já não acrescentava, imagina como reserva desmotivado. Pato, mesmo em fim de carreira, ao menos pode ajudar Muriel no seu desenvolvimento. Deveria ser negociado, especialmente por ter passaporte comunitário.
Bruno Silva - Insuficiência técnica.
Índio - Insuficiência técnica e indisciplina
Fabiano Eller - Insuficiência técnica
Sorondo - Insuficiência técnica
D´Alessandro - Fim de ciclo, desgaste. Desmotivação. Deveria ser negociado.
Kléber Pereira - Insuficiência técnica
Edu - Insuficiência técnica
Taison - Mau futebol, desgaste com a torcida. Deveria ser negociado ou emprestado.

Dinheiro pra estas dispensas? Bom, recisão é feita assim: 50% dos salários a serem recebidos até o final de contrato. Fabiano Eller, Bruno Silva, Índio, Kléber Pereira tem contratos até dezembro. O dinheiro deveria vir da venda de Sandro e da evidente redução de custos do futebol profissional para níveis aceitáveis antes de reforçar o time. Ficaria fraco no início? Talvez sim, mas na hora da adversidade é que as soluções criativas e de menor custo aparecem, os pratas-da-casa se desenvolvem.

Em 2002, o Santos fez uma limpeza geral e apostou nos garotos. Deu no que deu. Repetiu a dose em 2010 e olhem o resultado. Este ano, o Grêmio resolveu usar a gurizada. Está tendo sucesso. A eliminação na Libertadores é inexorável. Ou ocorrerá quinta-feira contra o Banfield, ou na fase seguinte contra o Estudiantes. Nela deveria sair Jorge Fossati, sua comissão técnica, a diretoria de futebol e o bando de jogadores citados acima.

É claro que nada disto irá ocorrer. A diretoria irá falar em “correções de rumo”, “contratações pontuais”, “um dos melhores elencos do Brasil”. Elogiar jogadores aqui e acolá e ficará tudo na mesma. O dinheiro existe no Beira-Rio e, ou é mal-utilizado, ou está sendo guardado para ter o maior superávit da história do futebol brasileiro.

Títulos? Afinal o Inter é campeão do mundo FIFA.

De 2006…