segunda-feira, janeiro 17, 2011

Paciência é virtude?

Depende. Aliás, tudo na vida depende de alguma condição. Até água, invariável formação de duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio - será insípida, inodora e incolor, dependendo do que for jogado no rio. Duvida? Vai ali na frente do Gasômetro e serve um copinho. Melhor, vai no Rio dos Sinos.

Em 2008, recém chegada em Madri, por confusão entre chaves de um apartamento fiquei na rua sem telefone, sem dinheiro, lenço, documento e sem o endereço onde estava minha amiga, com a verdadeira chave de casa. Cheguei a escrever sobre isso, na época. Eu podia possuir tamanha paciência e dormir no corredor do prédio, esperando minha amiga retornar no dia seguinte. Ela me encontraria no mesmo lugar há várias horas, provavelmente com a coluna de um mendigo e a cara de uma prostituta pobre em fim de turno.

Observação: nunca vi meretriz no derradeiro acender das luzes, mas creio que apresente uma expressão de quem não deitou onde mais gostaria.

De qualquer maneira, não esperei a noite passar, o dia raiar e o corredor me aquecer. Entrei num táxi sem grana mesmo. Depois de algumas voltas encontrei minha amiga. Tudo certo, final feliz e ainda fiz amizade com o taxista – um senhor simpático que se chamava Fernando e me contou que eu não era a primeira turista perdida que ele conduzira em seu carro. Já no aconchego e proteção do lar que me acolhia, “derrubei” uma garra de vinho Rioja, faceira com a façanha. Sentindo-me corajosa e dona de atitudes. Durante os quarenta minutos em que chorei um pouquinho e entrei no táxi, paciência não era o plano; tranqüilidade, sim.

Por outro lado, tive muita calma no preparo da temporada que passei na Europa. Esperei pacientemente alguns anos até adquirir todas as condições de fazer minha tão aguardada viagem. E, de fato, não poderia ter sido mais proveitosa e em tão adequado momento. Tivesse feito de tudo pra ir antes, não teria plena maturidade para desfrutar da maneira que o fiz, compreender minha vida olhando de longe e tirar as lições que aprendi nesse período. Ou, quem sabe com vinte anos eu sentisse tanto medo de entrar num táxi no estrangeiro sem um tostão, que eu realmente terminaria dormindo no corredor.

A princípio, não significa erro ou acerto as (até agora) não anunciadas contratações do Internacional. Diga-se de passagem, melhor silêncio preliminar do que caixas de som emudecidas. É fato que os reforços têm que surgir. E, lógico, não cairão do céu, muito menos virão de graça. Também não é a pressão das contratações de outros times, que nos forçarão a trazer nomes de peso.

Por incrível que pareça, o único jogador destes repatriados famosos que eu gostaria de ver no Inter é o Elano. Declínio por declínio, Ronaldinho inegavelmente não é mais o mesmo, só continua com igual disposição de cafajeste, dirão alguns traídos. O que mais serve de referência na contratação de um superstar é o farto leque de opções de marketing para o clube. Esta é uma de nossas expectativas, que embora não seja a mais importante, provavelmente estará frustrada se confirmado Zé Roberto (Vasco), por exemplo. Até porque, decepciona por não haver exposição de marca, nem bala na agulha. Ao menos pra quem sonhou com Luiz Fabiano. Isso que não me considero rigorosa inflexível, com Rafael Moura me dava muito por satisfeita.

Portanto, a paciência dos colorados é diretamente proporcional a tranqüilidade com que os dirigentes conduzem o processo. Mesmo que a suposta calma seja mistério pra mim. Não sei que negociações estão fazendo, nesse público silêncio. Não posso concluir se estão fazendo maravilha, aposta ou merda. Não gosto de muito barulho por nada, o que me leva a simpatizar com a vigente cautela. Mas tudo ficará explícito no momento em que forem apresentados os tais reforços. O sigilo de hoje só pode preceder duas alternativas de reações no amanhã: euforia, ou impaciência. E, nesse caso, estando justificada, inevitavelmente qualquer opção da torcida será virtude.