terça-feira, agosto 25, 2009

Mudanças na Regra - Versão Premiada

A FECI - Fundação de Esporte e Cultura do Sport Club Internacional promoveu um Concurso de Poseias, Contos e Crônicas, para o qual fui convidado a participar. Diante desse convite, editei a versão original do texto Mudanças na Regra, postada aqui no dia 30/12/2008, e o inscrevi no concurso. Para minha grande satisfação, a referida crônica ganhou o primeiro lugar em sua categoria. A cerimônia de premiação será amanhã, na sede da FECI. Gostaria de, hoje, dividir essa alegria com os leitores do BV, agradecendo a todos que semanalmente aguentam meus relatos, sejam eles emotivos, críticos, interessantes ou chatos. Transcrevo, abaixo, a versão premiada.

No ano do centenário colorado, aqueles que costumam debater diariamente as coisas do futebol e do seu clube do coração, pela internet, devem estar atentos para mudanças na regra que estarão entrando em vigor no primeiro dia de 2009. Mas não estou falando da regra do futebol. Essa muda pouco ou quase nada a cada década. A última mudança significativa de que eu me recordo foi a vedação ao goleiro de pegar com as mãos bolas recuadas com os pés ou advindas de um arremesso lateral. Estou falando é da reforma ortográfica. Sim, porque, se por um lado ela em nada afetará nosso vocabulário de arquibancada, certamente interferirá nos nossos debates escritos. Seja no desabafo pós-jogo, seja nas análises técnico-táticas dos dias seguintes, ou até mesmo naquela tradicional corneta virtual via e-mail para um amigo rival. Essas mudanças serão importantes porque, com isso, a Língua Portuguesa poderá se tornar um dos idiomas oficiais da FIFA, opa, quer dizer, da ONU.

Podemos começar pelo acento diferencial. Agora o jogador não pára mais a bola, nem o juiz pára a jogada. A partir de 2009, o árbitro para o jogo para o jogador ser atendido pelos médicos. Verbo e preposição estarão escritos com a mesma grafia. O acento diferencial foi rebaixado. A exceção fica com o verbo pôr. O Ronaldinho tentou pôr a bola na rede, mas ela passou por cima da barreira e foi para fora. Com isso, o colorado pôde comemorar o título mundial FIFA. Contudo, até hoje, gremista não pode.

Outro que caiu para a segunda divisão da língua foi o acento circunflexo no hiato “ee”. Isso significa que aqueles que leem este texto, agora não precisarão mais acentuar a primeira letra “e” da palavra. O mesmo vale para todos os demais torcedores que veem, creem e preveem tanta coisa sobre futebol quanto este fanático que ora vos escreve. Mas atenção: o acento circunflexo continua no plural dos verbos ter e vir e seus derivados. Então aqueles que têm suas convicções imutáveis sobre futebol, que mantêm seus pontos de vista a todo custo, não deixarão o acento para trás.

Agora, o lanterninha, aquele que foi rebaixado sem exceção é o trema. Portanto, passaremos a escrever com frequência sobre as consequências das arguições eloquentes dos nossos novos Conselheiros. Discutiremos medidas exequíveis, em debates nada tranquilos. Quero só ver quem é que aguenta. Trema, agora, só em nomes próprios de origem estrangeira.

Ainda temos a abolição do acento agudo nas paroxítonas com os ditongos abertos “ei” e “oi”. Aqui, vale ressaltar que velhas idéias sobre futebol deverão ser substituídas por ideias novas. Estas, sem acento. Neste ponto, eu gostaria de lembrar que o futebol é apenas um jogo, mas quem escreve para a grande massa deve cuidar quando o faz como quem joga para a plateia, querendo fazer de determinados jogos uma epopeia, transformando simples partidas em feitos heroicos. Na cabeça de um debiloide, a ideia de batalhas e odisseias, pode acabar incitando a violência. Ou seria eu um paranoico? Tudo sem acento, é claro.

Mas a grande dificuldade vai estar mesmo é no hífen. Em alguns casos ele caiu. Note-se que o Fernando Carvalho para muitos, será o verdadeiro presidente do Inter, mas isso será extraoficial (sem hífen). Formalmente, o mandachuva (sem hífen), continuará sendo Vitório Píffero. Isso porque o prefixo termina em vogal e a palavra seguinte começa também com vogal. Mas, atenção! Quando as vogais forem iguais, continua o hífen. Portanto, não adianta reclamar na Social, o contra-ataque seguirá separado por este acento gráfico, por mais que desejemos uma ligação direta entre a defesa e o ataque.

Cai o hífen, ainda, quando o prefixo termina em vogal e a palavra seguinte começa com “s” ou “r”. Neste caso, dobra-se a consoante. Assim, podemos ter entre as torcidas gaúchas, grupos ou facções antissemitas (sem hífen), mas no Beira-Rio, eu garanto, temos uma torcida antirracismo(sem hífen). Mas cuide quando o prefixo terminar em “r” e o elemento seguinte começar com a mesma letra, pois, aí, segue o hífen. É o caso de inter-regional, só que este termo já caiu em desuso faz algum tempo. Mas se alguém ainda estiver com essa antiga provocação entalada na goela e quiser devolver aos rivais, fica a dica, façam-na com hífen: “Quem é inter-regional agora, hein?”

Por fim, vale lembrar que nos falsos prefixos, aqueles que na língua de origem (Grego e Latim) eram palavras autônomas, continuam-se usando o hífen. São exemplos: macro, micro e bi. Então, bi-rebaixado continua sendo escrito com hífen. Mas mesmo entre os prefixos verdadeiros, há aqueles que continuarão aceitando o hífen. É o caso do vice. Então, para aquele seu parente, amigo, colega ou vizinho que acha que vice é título, não se esqueça de avisá-lo que, na hora de confeccionar a faixa, coloque o hífen.

Contudo, diante de tantas mudanças, não é preciso entrar em pânico. Haverá um período de transição de quatro anos nos quais tanto a regra antiga quanto a nova serão válidas. Até lá, esperamos que a cobertura do Beira-Rio já esteja pronta. Ainda falta os membros da Academia Brasileira de Letras aprovarem o novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e, enquanto isso, ainda haverá pequenas diferenças de grafia decorrentes de interpretações divergentes entre especialistas.

Tanto na regra velha, quanto na nova, pretendo continuar escrevendo e, inevitavelmente, por vezes, errando. Mas sempre aprendendo. Afinal, não sei o que é mais complicado, se a Ortografia da Língua Portuguesa ou a interpretação do impedimento passivo na imagem em câmera-lenta. Câmera-lenta? Com ou sem hífen?