terça-feira, julho 05, 2011

Geraldo e seu chevette

pré.s.: Uma homenagem ao "mestre Severo", retomando alguns de seus personagens históricos (saiba porquê aqui). Outras: grande jogada da direção, segurando Damião. Vai render o dobro, podem esperar.

Geraldo estava em crise. Há alguns anos estava separado da mulher, Alícia, sem entender muito bem as razões. Alguma coisa a ver com genética e filosofia, "É uma questão genética, Geraldo. Se pelo menos você soubesse filosofia", dizia ela. Enfim, ele nunca compreendeu, sofreu, chorou, frequentou mais de 20 shows sertanejos desde então, se afundou na fossa. Enfim, quando ele sentia que estava superando o fim do casamento, quando começava a se sentir "livre pra amar novamente", outra coisa começou a lhe incomodar.

Geraldo tinha um chevette. Sua paixão. Apesar das limitações óbvias, como a pintura gasta, motor retificado, estofado velho, Geraldo era cego a tais defeitos. Gostava de chamar seu chevette de "meu possante imortal". Bonito isso. Afinal, quem não tem uma paixão assim, digamos, altruísta, que nada pede em troca, que apenas ama, pela simples razão de amar. Aliás, havia ainda um outro motivo especial: Geraldo comprara o chevette pouco depois do maior feito de sua vida, "os ovos no Carvalho", como ele gostava de dizer. Era olhar para seu chevette e se lembrar desse ato heróico, por que não dizer, imortal.

Agora que era apenas ele e seu "possante imortal", agora que Alícia não estava mais ali, Geraldo era capaz até de dar a vida pelo seu novo amor. Pois bem. Esse é o Geraldo que encontramos, 3 anos depois das últimas notícias que tivemos dele. O que o incomodava, como dissemos acima, era seu vizinho Aristóteles. Aquele mesmo, não é mera coincidência, caro leitor. Aristóteles estava bem. Um bom emprego, apartamento todo reformado, uma linda esposa, aliás, linda não. Jezebel (conheça ela aqui) era divina! Geraldo não acreditava que um cara como Aristóteles podia ter uma mulher daquela. "Inacreditável", remoía Geraldo. Havia boatos de que Jezebel tinha sido gremista, mas desde que a conhecia, mais ou menos na época em que Alícia e ele se separaram, só a vira usar o manto colorado. E como usava. Um brilho nos olhos, uma paixão louca. "Que merda, mas essa mulher fica ainda mais deliciosa com essa camisetinha vermelha", pensava Geraldo, sentindo uma dor profunda por essa traição.

Aristóteles estava sempre risonho e isso deixava Geraldo fulo da vida. Além de Jezebel, do emprego, do ap reformado, Aristóteles andava agora de Audi. Comprou usado, claro, afinal ele estava bem, mas ainda não estava rico. Porém, Aristóteles tinha feito um ótimo negócio, comprando o Audi com alguns anos de uso, mas em estado de novo. Lindo. De um vermelho intenso, com rodas aro 19, liga leve. Um estofado em couro branco, que Geraldo não entendia como era capaz de se manter tão limpo. Geraldo sentia muita inveja. E raiva. Seu possante imortal não raras vezes o deixava na mão de manhã. Aristóteles saía mais ou menos no mesmo horário e, sempre brincalhão, mas gentil, dizia "Geraldo, doido pra andar no 'meu colorado' hoje, né", dando uma risadinha que enfurecia Geraldo. O pior é que era verdade. Geraldo já não sabia bem se realmente ficava irritado pelo carro enguiçado ou se de fato comemorava insconcientemente a chance de pegar uma carona no Audi de Aristóteles e sonhar, enquanto sentia o cheiro do perfume de Jezebel, sentada no banco da frente.

E assim seguia a vida de Geraldo. Antes de terminar essa estória, porém, vale a pena contar a última dele. Há tempos que Geraldo vinha refletindo sobre o sucesso de Aristóteles. Ele suspeitava que muito do sucesso de Aristóteles tinha a ver com seu jeito de vestir. "É isso mesmo", pensava Geraldo. "Há tempos ele vem se vestindo mais formalmente, com ternos, camisas e calças muito bem feitas. E isso certamente faz as pessoas levarem ele mais a sério, por isso todo esse sucesso", concluía. Um pensamento simplista e ingênuo, é preciso dizer, mas Geraldo seguia, "Se eu também começar a me vestir assim, certamente em pouco tempo vou ter mais sucesso que o Aristóteles. Quem sabe até conquisto a Jezebel?!", imaginava quase babando de tanta euforia. Esse era Geraldo, ingênuo mas obstinado.

Uma breve pesquisa e Geraldo descobriu que Aristóteles comprava as roupas de um alfaiate famoso, conhecido como Paulo Roberto. Geraldo foi lá pra ver quanto custava. Paulo Roberto era um cara gentil e antes mesmo de discutir preços com Geraldo, mostrou sua alfaiataria, explicou sobre a arte de confeccionar roupas, sobre tipos de tecidos e outras coisas. Uma aula. Geraldo ficou mesmo encantado pela educação, simpatia e elegância de Paulo. Foi então que Paulo lhe apresentou seu principal encarregado na alfaiataria, o competente "Julinho", como o chamavam. Geraldo notou que Paulo tinha muita confiança em Julinho.

Paulo então convidou Geraldo para uma sala mais privativa, para falarem de preços. Pra quê. Geraldo foi ao inferno logo na primeira cifra apresentada por Paulo, para a compra de uma simples camisa feita por ele. Geraldo não acreditava. "De onde vou tirar esse dinheiro?!", se perguntava angustiado. Geraldo não tinha cacife para comprar as roupas de Paulo. Na hora sentiu ainda mais inveja do Aristóteles. O que ele não sabia é que Aristóteles e Paulo eram amigos de longa data e Paulo fazia um preço camarada para Aristóteles. Mas, como dissemos, Geraldo era obstinado. Foi pra casa matutando em tudo isso. Dormiu tarde, com dor de cabeça de tanto pensar. No meio da madrugada, Geraldo acordou eufórico, tinha tido um sonho iluminador!

Sonhou que visitava a alfaiataria e via que quem de fato fazia tudo era o tal Julinho. Isso o fez acordar de pronto, com a idéia redentora. Ele tinha certeza: era o tal Julinho que fazia de fato o trabalho. O tal Paulo só ganhava no nome, só ficava com os louros. "Que Paulo que nada", exclamava Geraldo. "E se eu convencer o tal Julinho a fazer pra mim, por fora, por um preço mais barato?". Na primeira hora da manhã do dia seguinte, Geraldo voltou a alfaiataria e, por sorte, Paulo não estava lá. Pediu então para chamarem o Julinho e conversaram. Há tempos Julinho esperava pela chance de começar sua própria alfaiataria e esse Geraldo poderia ser sua porta de entrada, seu primeiro "cliente especial". Não deu outra. Julinho pediu demissão, alugou uma salinha comercial e começou seu negócio próprio, pro seu primeiro cliente, o Geraldo, que se não pagava muito, pelo menos estava disposto até a pegar empréstimo pra lhe pagar o melhor que podia.

E Geraldo voltou pra casa feliz, confiante de que agora teria sucesso. E, melhor, pensava "Agora, sem o Julinho, quero ver o tal Paulo continuar tendo sucesso. Aristóteles vai se ferrar". Geraldo dormiu feliz e sorridente, em meio a sua infantial ingenuidade e profunda inveja. O que ele não sabia, pobre Geraldo, é que o mercado está cheio de profissionais como Julinho, competentes em gerir a produção. Sua substituição viria naturalmente.


O que Geraldo não sabia é que alfaiataria é uma arte e que o artista era Paulo.