terça-feira, agosto 17, 2010

Chega de Cicatrizes

Na infância, todos os dias, após o recreio, eu era um dos últimos na fila para escovar os dentes e voltar para a sala de aula. Sempre fui um dos menores da turma e isso dificultava muito uma disputa na fila, após o sinal que anunciava o fim do recreio. Até que um dia eu decidi que seria o primeiro.

Parece que foi ontem. Era uma tarde ensolarada e quente, provavelmente no final do ano. Eu saí para o recreio concentrado no meu lanche, mas sem querer brincar com as outras crianças. Meus coleguinhas estranhavam por que eu não os acompanhava em brincadeiras rotineiras, em lugares do pátio que eu costumava ir. Não contei para ninguém, mas eu tinha uma meta e iria cumpri-la, ainda que isso me custasse perder as brincadeiras da hora do recreio. Passei todo intervalo preocupado em comer rapidamente minha merenda e permanecer atento ao sinal. Naquela tarde, nada nem ninguém me impediria de ser o primeiro. Foi quando aconteceu.

No momento em que soou o sinal, eu parti em disparada rumo à porta onde se formava a fila que eu pretendia liderar. Certamente, corri em velocidade excessiva e desnecessária para alcançar o meu objetivo. Mas eu estava cego! Tão cego que ignorei os dois degraus existentes pouco antes de chegar à porta, tropecei, caí de queixo no chão e só acordei alguns minutos mais tarde, num ambulatório de um hospital.

Mas mais que o corte no queixo, o que me doeu foi o fato de que eu planejei ser o primeiro da fila, abri mão das brincadeiras do recreio, fiquei atento ao sinal sonoro e corri para chegar na frente, mas mesmo assim, não obtive sucesso. Eu subestimei os degraus, eu não avaliei bem os riscos e, por isso, não cumpri minha meta.

Após aquele tropeço, ganhei alguns pontos no queixo e uma bela cicatriz. Cicatrizes são diplomas de lições que aprendemos com dor, mas que em vez de pendurarmos na parede, levamos no corpo, para nos lembrarmos constantemente de jamais subestimar os riscos do dia a dia. Depois daquele tombo, aprendi a respeitar muito mais qualquer degrau.

Pois nesse fim de semana, eu me questionava sobre o que poderá acontecer com o Inter nesta final da Libertadores. Lembrava-me dos tropeços do passado e também das cicatrizes que eles nos deixaram. Lembrei-me de que é caindo que se aprende a caminhar, de que é apanhando que se aprende a bater. Então olhei para minhas cicatrizes, passei a mão no meu queixo e tive a certeza: amanhã à noite, quando soar o apito final, seremos os primeiros da fila, sem tropeços! Chega de cicatrizes.