terça-feira, agosto 09, 2011

Enquanto isso, no Bar do Rio...

pré.s: O texto a seguir é meramente ficcional, explorando possíveis cenários do mundo real a partir das inúmeras discussões que já fizemos aqui no blog. Só pra esclarecer, não tenho e nem pretendo ter qualquer informação privilegiada de qualquer ordem.


"O négocio é até simples, embora tome um bom tempo até se estabelecer. O mais importante é minimizar riscos, esse é o objetivo central". Assim começava a conversa que Pedro ouvia com atenção, sentado na mesa ao lado, com seu tradicional copo de leite e o galeto na brasa. Na outra mesa estavam dois clientes "vip" do Bar do Rio, conversando animadamente. Pedro também reparou que, fato raro, quem os servia pessoalmente era o próprio General, o chef da cozinha, que ia e vinha sempre sorridente e trigueiro, flertando com clientes do bar.

- Funciona assim: primeiro, é preciso conquistar a confiança dos sócios. Dependemos deles para gerir o negócio. Começamos com uma margem de lucro muito baixa, às vezes até perdendo aqui e ali, para que possamos apresentar resultados positivos e convincentes, isto é, títulos. Além disso, investimos em marketing para dar uma cara profissional pro negócio e supervalorizar qualquer ação nossa.

Pedro tentava mastigar bem suave e lentamente para poder ouvir bem, estava curioso e já nem ligava para o tempero um tanto salgado do galeto.

- Com isso, nossa credibilidade fica praticamente inatacável perante os sócios.
- Mas, de todo modo, ocorrerão eleições e fatalmente vocês serão substituídos, não é? O que fazer, nesse caso?
- Ah, mas aí é que entra o planejamento a longo prazo. É preciso consolidar de tal forma nossa atuação, que mesmo ausentes enquanto figuras públicas, estejamos sempre no controle da situação. O primeiro passo é tentar garantir que nossos substitutos sejam parceiros. Não sendo possível fazer isso, a tática infalível é minar os adversários, usando toda nossa rede de influências internas e externas. Não tem erro! Em pouco tempo, os sócios estão clamando por nosso retorno novamente.

"Ai!", exclamou Pedro, quando um ossinho do galeto lhe feriu a gengiva. Estava completamente atento à conversa.

- Mas no início você falava em minimizar riscos. Vamos ao que importa, então: o dinheiro. Como evitar prejuízo, afinal esse é um negócio de risco, certo? Uma hora se perde, outra se ganha, sem dúvida.
- Errado. No nível em que estamos, é só ganho. Sempre. Vou explicar...

Pedro sinalizou para o garçom e apontou para o copo de leite vazio, pedindo outro.

- No início, recorremos a parceiros investidores, que entram no negócio da seguinte forma: primeiro, provêem o capital necessário para atingirmos grandes resultados, que fatalmente começam a vir, afinal, convenhamos, nesse nosso negócio o que conta mesmo são os jogadores que você tem, quem treina só não precisa atrapalhar, aliás, tem que ser "parceiro" também. Com o tempo, nós também começamos a investir no negócio, sem nos desvincular dos parceiros é claro.
- Mas e quando uma aposta não dá certo?
- Aí é que está. Não dá certo pra quem? Só pros sócios. De fato, nem sempre as peças correspondem como esperado. Mas levamos essa situação ao limite, até que os sócios fiquem muito insatisfeitos. Nesse período ganhamos muita grana, pois jogadores medianos vem com toda a pompa, com contratos altos, mas já acertados quanto ao percentual que terão que retornar. Fazer isso funcionar é complexo, mas uma vez feito, você garante uma fonte perene de retorno do investimento. Quanto mais jogadores nesses esquema melhor. Eventualmente, ainda fazemos um lucro estratoférico com algum jovem promissor.
- Mas uma hora os sócios perdem a paciência pela falta de resultados e aí? Com grandes jogadores também dá pra fazer esse esquema?
- Sim, esse é o período de "vacas magras" pra gente. Neste ponto, acionamos todos os parceiros e trazemos uma leva de jogadores de alto nível, melhorando os resultados por um tempo. Porém, com esses jogadores não dá pra fazer o esquema do percentual, pois seus salários são muito altos. Até podemos acertar alguma coisa, mais aí a negociação é bem mais complicada. Portanto, a estratégia é sempre minimizar ao máximo esse período. Basta vir um título razoável e voltamos ao "modelo padrão".
- Caramba, então essa história de elenco grande, time B, C, etc., tudo isso faz parte do modelo padrão?
- Exatamente. Por isso digo que não há riscos, uma vez que a máquina esteja toda montada. É batata!
- Mas me diga, uma dúvida: com essa forma de levar o negócio, a idéia é sempre ser um clube de estrutura mediana, pois crescer mesmo o clube não cresce, né? O dinheiro está sempre com os parceiros, se entendi bem. Se eles saírem, o clube pode afundar...
- É, não posso negar, é isso mesmo. Mas, pra quê mais? Está todo mundo feliz, não está? Não estamos enganando ninguém, afinal não é título que torcedor quer?

Com um certo mal-estar, Pedro nem terminou o segundo copo de leite. Pagou a conta e foi pra casa pensando seriamente em mudar o tradicional programa de domingo à tarde com seus filhos.