sexta-feira, abril 03, 2009

Por favor, não mude nada

E então aqui estamos nós. O último dia, do último ano, do 1º Centenário do Internacional. Um “reveillon” vermelho, nosso, diferente dos demais. Alguma coisa mudará em nossas vidas? Não. Domingo tem mais um Gre-Nal e começa tudo de novo. Se nós ganharmos será um jogo épico em contrapartida àqueles 10 a Zero. Se perdermos... será um recomeço igual e pode ser um sinal de que tudo nesse nosso novo século também será igual. E quem gostaria de mudar alguma coisa?
Imagine que você é Marty McFly e o Dr. Emmett Brown está te oferecendo um passeio na "De Lorean". Você, coloradaço(a), vê ali uma grande oportunidade de voltar ao passado e mudar momentos históricos do Inter. Quem sabe avisar o pessoal sobre os perigos do Olímpia, quem sabe avisar sobre as bolas aéreas do Nacional na Libertadores de 80, quem sabe, enfim fazer algo para que a gurizada do Inter esperasse mais um pouco e deixasse para o fim do ano aquele confronto com a alemoada isolada do Moinhos de Vento e, assim, nos poupar daqueles 10 gols?
Apesar da sedução da proposta, você percebe que nada deveria ser diferente. Você lembra do L. F. Veríssimo, "Certos acontecimentos transformam tudo que veio antes em preliminar". Então isso te desperta uma nostalgia de todos os fracassos do Internacional, porque passa a dar-se conta de como as derrotas são importantes para alimentar as grandes vitórias. Sabemos como o Olímpia, o Zveitão 2005 e o Gauchão 2006 estavam presentes no Beira-Rio naquele 16 de Agosto. Diferentemente de 2007, quando éramos "os tais" na Libertadores, esquecemos os fracassos e entramos em campo curtindo 2006. Deu no que deu.
Alguém pode dizer que eu gosto de perder, que é papo de perdedor ficar remoendo derrotas, feridas do passado. Nada disso. A grande lição que aprendi nesse século é que devemos reviver, lembrar e pensar nas nossas grandes decepções, as goleadas, as derrotas imprevisíveis. São elas que alimentam nossa paixão, nossa vontade de superar, de ultrapassar os limites que sempre alguém dirá inatingível para nós.
Por tudo isso, que peço no limiar desse novo século colorado que, se alguém inventar uma "De Lorean" de verdade, se no futuro algum colorado puder viajar no tempo, por favor, não mexa no passado do Inter. Nada. Não reverta nem uma lateral. O passado não lhe pertence. O autor desse texto, por exemplo, vive alimentado dos fracassos dos anos 90, assim como aqueles que viveram os anos 70 (do Tri e do Octa) levavam para o Beira-Rio, na construção e na plenitude, um único Gauchão (1961) em 14 anos(!) e os que viveram o Rolo Compressor buscaram a supremacia colorada em Grenais e em estaduais, que desde o início fora deles.
É provável que outros fracassos sejam necessários para conscientizar gerações futuras. Conscientizar de que nós sempre devemos ser humildes e lutar até o fim. Mas há uma boa alternativa: reviver os jogos perdidos! Colorados e coloradas do presente e do futuro, o passado não lhes pertence! Mas pode ser emprestado (com gosto). Nunca esqueçam as derrotas e levem elas consigo para o Beira-Rio ou ao Estádio que o Inter vier a construir nesses próximos 100 anos. Dia de decisão, lembrem de um tal Olímpia, lembrem do Bahia, lembrem do Nacional. Esqueçam o São Paulo, esqueçam o Barça, esqueçam o Cruzeiro, Corinthians e Vasco, esqueçam o Rolo Compressor. Já em dia de Gre-Nal esqueçam o último 4x1 de 2008, o 5x2 de 1997, o 7x0 de 1948. Em dia de Gre-Nal lembre dos 10 x 0 de 1909. Temos essa dívida com aquela gurizada, que nos deixou esse imenso legado. E, por favor, não digam que é impossível. Ou melhor, digam que é. Se puder, dê uma gargalhada.

Vida longa ao Sport Club Internacional!

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Amanhã no Supremacia Colorada, o Tiago Vaz publicará as últimas informações de sua pesquisa sobre a Trajetória de Henrique Poppe Leão.
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Fotos: Ricardo Furasté